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Tema: Big Picture em História da Ciência

Sessão de 19 de Março de 2013, Daniel Gamito Marques

Tema: Big Picture em História da Ciência
O tema deste Journal Club está relacionado com um assunto que me parece ser bastante importante no contexto da actual História das Ciências: a ausência de estudos globais e integradores do conhecimento produzido no âmbito da disciplina, ou, dito de outra forma, a ausência de uma “big picture”. Os artigos que propus para lançar o debate reflectem diferentes momentos da discussão do tema e as posições de alguns autores relativamente às estratégias que deverão ser seguidas para superar esta limitação da historiografia contemporânea.

Grandes narrativas e “whiggism”

Desde o final do séc. XIX, os estudos históricos sobre a evolução das ciências tiveram frequentemente intenções moralizadoras. Os investigadores procuravam construir grandes narrativas do desenvolvimento científico, cujos protagonistas eram homens extraordinários movidos por um ardente amor ao conhecimento, trazendo o progresso às suas sociedades e o melhoramento das condições de vida. Grandes homens de ciência como Newton, Lavoisier e Darwin, entre outros, eram representados como exemplo a seguir por qualquer aspirante a cientista que se prezasse, sendo implícita ou explicitamente elevados à categoria de homens superiores. No seguimento destas noções, os trabalhos sobre a história das ciências tendiam a apresentar, à boa maneira positivista, que o desenvolvimento económico, político e cultural das sociedades ocidentais, e sobretudo da sociedade europeia, se devia ao desenvolvimento tecnocientífico atingido e à aposta na ciência enquanto actividade privilegiada. A ciência era uma actividade que caminhava triunfalmente em direcção a um maior progresso e a par da evolução da sociedade. As duas guerras mundiais que assolaram e devastaram a Europa contribuíram de uma forma determinante para lançar fortes suspeições relativamente a esta atitude geral; a verdade, porém, é que a ideia de que o grande desenvolvimento científico e tecnológico do mundo ocidental tinha permitido ou catalisado uma maior prosperidade económica, a adopção de regimes políticos tendencialmente mais democráticos, e em alguns casos mesmo a produção de uma cultura superior às outras, continuou a marcar presença em grandes narrativas triunfalistas da história das ciências. Esta atitude simplista foi apelidada de “whiggish”, e durante a segunda metade do século XX vários autores criticaram os seus pressupostos e pontos essenciais, levantando-se polémicas acesas que, em alguns casos, vão até aos nossos dias.

A crítica pós-modernista

A partir dos 1970s, o aparecimento de uma nova corrente historiográfica, a microstoria (“microhistory”, micro-história), que privilegiava a análise de períodos temporais mais curtos e episódios mais delimitados temporalmente, bem como a crescente sofisticação das metodologias de análise historiográfica decorrente da especialização de subdisciplinas da História, e da própria História das Ciências, com destaque para as abordagens sociológicas, contribuíram para a crítica e o descrédito de narrativas “whiggish”, de pendor presentista. O desenvolvimento crescente da disciplina de História das Ciências, a multiplicação de estudos da área, e a especialização de profissionais em épocas históricas e áreas científicas particulares, contribuíram para o descrédito da capacidade que grandes narrativas históricas teriam para esclarecer a evolução da ciência ao longo dos tempos. Esta atitude é, de resto, a base da “condição pós-moderna” ou do “pós-modernismo” (uma das primeiras sínteses desta atitude pode ser encontrada na obra homónima de Lyotard, que foi publicada em 1979).

Onde pára a “big picture”?

Ainda que a salutar crítica a narrativas “whiggish” e a maior sofisticação historiográfica tenham contribuído para enriquecer a História das Ciências, a especialização de profissionais levou a uma fragmentação do conhecimento produzido no âmbito da disciplina. A ausência de uma narrativa globalizante e integradora da quantidade avassaladora de novos estudos que foram sendo produzidos durante a segunda metade do século XX fez nascer um sentimento de desconforto entre os historiadores das ciências: a sensação de que a unidade da disciplina se tinha perdido irremediavelmente e que seria difícil, ou mesmo impossível, voltar a formar uma narrativa sintética que pudesse pôr em evidência os principais factores que levaram à evolução da ciência até à sua forma actual. Em suma, perdera-se a “big picture”.

Diagnóstico e tratamento

A consciência de que voltava a ser necessária uma “big picture” que reunisse os resultados da profusão de estudos da historiografia das ciências numa narrativa mais abrangente, mas desta vez longe do pendor “whiggish” de outrora, manifestou-se de um modo expressivo a partir do final da década de 1980s. Como podemos notar no artigo de Charles Rosenberg (1989), que faz uma breve síntese daquilo que mudou durante os primeiros 75 anos de existência da revista Isis, começaram a aparecer propostas para superar esta situação. Rosenberg propõe que seria importante fomentar a escrita de artigos de revisão (reviews) sobre determinados temas específicos (exemplos: a Revolução Científica, a vida e obra de Darwin, Ciência e Império, conhecimento científico na Idade Média, etc.) que procurassem sintetizar qual o estado actual de determinadas áreas de investigação, proporcionando breves resumos que dariam aos investigadores não-especialistas da área em questão uma visão panorâmica que lhes permitiria ficar a par dos mais recentes desenvolvimentos na História das Ciências. A elaboração destes artigos de revisão (reviews, review articles) começava a praticar-se em áreas científicas que já tinham atingido um elevado nível de especialização (a título de exemplo, refira-se a posterior criação da série de publicações Nature Reviews em 2000, que conta presentemente com 15 publicações temáticas em cancro, genética, imunologia, microbiologia, etc.). Rosenberg também propunha que a historiografia das ciências deveria dedicar-se mais à exploração das relações entre ciência e política. O estudo da ciência praticada no âmbito de determinados contextos políticos poderia fornecer um denominador comum a diferentes estudos conduzidos por investigadores de âmbitos distintos, além de atrair a atenção do grande público.

A procura de uma “big picture”

Prova de que a perda de uma “big picture” na História das Ciências estava longe de ser colmatada é a quantidade de artigos onde o tema é discutido. C. Hakfoort (1991) faz uma excelente síntese daquilo que está em causa no artigo “The Missing Syntheses in the Historiography of Science”. Na sua opinião, nem mesmo os livros da então recente série Cambridge History of Science conseguem suprir a inexistência de “big pictures”. As obras deste género, onde se incluem outros títulos, como o Oxford Companion to the History of Modern Science, assemelham-se frequentemente a “mantas de retalhos”, limitando-se a apresentar artigos de revisão em determinadas áreas específicas (Zoologia, Botânica, Citologia, Anatomia Comparada), tópicos de investigação (Ciência e Género, Ciência e Império), ou conceitos (paralaxe, evolucionismo, oxigénio), sem apresentar uma verdadeira narrativa de síntese. Hakfoort reconhece a qualidade de cada um desses artigos individuais; na sua opinião, porém, eles são insuficientes porque não fornecem a tão necessária “big picture”. Hakfoort propõe que, para que os historiadores das ciências possam escrever uma verdadeira história “big picture”, ainda que seja necessário aceitar que não existe uma única narrativa que possa explicar satisfatoriamente a evolução das ciências, é possível escrever uma narrativa integradora e abrangente se os historiadores tentarem mostrar as várias práticas científicas que existiram ao longo do tempo e o modo como estas foram moldadas de acordo com as concepções socialmente aceites sobre o que deveria ser a filosofia natural/ciência em cada contexto histórico (ou, para usar a terminologia de Foucault, no contexto de cada episteme).

O artigo de Hakfoort não foi o único a discutir as causas e as consequências da ausência de “big pictures” na História das Ciências. Em 1993, um número especial da revista British Journal for the History of Science chamado precisamente “Big Picture” reuniu artigos de seis autores em torno desta questão, como James A. Secord e John V. Pickstone. Cerca de uma década mais tarde, em 2005, a revista Isis publicou um número especial dedicado a esta questão, chamado “The Generalist Vision in the History of Science”, com contribuições de autores prestigiados, como Robert E. Kohler e Steven Shapin. A recorrência deste tema mostra como a discussão em torno das orientações historiográficas necessárias a uma compreensão abrangente e integrada da História das Ciências está longe de se encontrar resolvida, reaparecendo periodicamente. Neste contexto, o artigo de David Kaiser (2005), “Training and the Generalist’s Vision in the History of Science”, fornece alguns dados interessantes para pensar este tópico. A sua singularidade reside nos elementos que o autor põe em evidência para explicar a perda de uma “big picture”, ou “generalist vision”. Para além da maior sofisticação das análises historiográficas e da popularidade de determinadas abordagens entre os historiadores das ciências, factores que são normalmente apontados como os mais importantes para a perda de uma “big picture”, Kaiser nota que a alteração dos requisitos exigidos aos estudantes para se tornarem historiadores das ciências, no seguimento da profissionalização da disciplina, catalisou e aprofundou a fragmentação da investigação numa miríade de estudos parciais e cada vez mais específicos. A necessidade de analisar fontes primárias que requerem estudos demorados levou a que, por um lado, as investigações se tornassem cada vez mais localizadas em contextos e períodos específicos, frequentemente decorrentes do tipo de fontes mais facilmente disponível aos estudantes (localism); por outro lado, a elaboração de obras de síntese (“big picture”) foi dificultada pela diminuição do tempo que os alunos têm disponível para conduzir grandes pesquisas e pela diminuição dos recursos monetários concedidos a essas mesmas pesquisas, o que está ainda directamente relacionado com o grande aumento de profissionais da área. Analisando o número de dissertações de doutoramento produzido nos EUA e no Canadá, Kaiser nota como entre 1988 e 1996 a taxa de produção atingiu os 14,5 doutoramentos/ano! Este valor é ainda mais significativo se repararmos que, como indica Kaiser, esta taxa de produção era onze vezes mais alta do que a taxa de produção de dissertações em outras áreas! À semelhança do que já acontecera em outras disciplinas científicas, o aumento de produção levou a uma especialização e fragmentação da História das Ciências. Apesar do tipo de fontes passíveis de serem analisadas historiograficamente ter aumentado, o que é aliás vantajoso para a compreensão da evolução das ciências, a disciplina acabou por fragmentar-se em pequenos grupos de interesse altamente especializados e entre os quais é não raras vezes difícil estabelecer pontes de contacto e uma linguagem comum.

Desafios futuros

Apesar desta crescente especialização, Kaiser mostra que a História das Ciências continua a ser uma disciplina de grandes assimetrias: mais de dois terços das dissertações produzidas versam os séculos XIX e XX, e metade destas dissertações analisam os contextos americano e britânico. É claro que esta assimetria pode ser compreendida se atendermos ao grau de profissionalização, desenvolvimento e tradição científica da História das Ciências nestes países, bem como aos interesses pessoais dos seus investigadores; esta constatação, porém, não elimina a existência de grandes assimetrias que contribuem para a ausência de uma “big picture”.

Daniel Gamito Marques

Fifty years of The Structure of Scientific Revolutions, twenty-five of Science in Action

Sessão de 19 de Fevereiro de 2013, Pedro Raposo

AA.VV.,
Fifty years of The Structure of Scientific Revolutions, twenty-five of Science in Action
, (special issue). Social Studies of Science, vol. 42, nr. 3, June 2012

Aproveitando a coincidência entre as bodas de ouro da Estrutura das Revoluções Científicas e das bodas de prata de Science in Action (SiA), a conceituada revista Social Studies of Science (SSS) dedicou uma secção temática do número 42 de 2012 a estas duas obras e aos seus autores,1 convidando proeminentes historiadores, filósofos e sociólogos a pronunciarem-se sobre o seu impacto, actualidade e potencial para orientar novas investigações. O resultado é um conjunto de artigos bastante heterogéneo, onde encontramos manifestos de ruptura e continuidade relativamente a ambos os autores. De um modo geral, ressalta do conjunto que Kuhn é já, sobretudo, história, e que foi menos influente na História das Ciências (HC) do que poderíamos pensar. Kuhn surge aqui problematizado sobretudo em termos do seu lugar na genealogia dos Science Studies, sendo a pretensa originalidade das suas propostas confrontada com o contexto em que emergiu a Estrutura e com as apropriações que Kuhn fez de ideias e conceitos que já estavam presentes noutros autores. Em consonância com a ordem cronológica das coisas, o mais recente SiA e o seu autor surgem aqui revestidos de muito maior actualidade, quer para os Science Studies quer para a HC (ainda que, note-se, os dois campos sejam, de um modo geral, tratados de forma indistinta). A primeira questão que se poderia colocar – se faz sentido, para além da coincidência das “bodas”, colocar as duas obras lado a lado – parece-me, por isso, pouco interessante, pois não carece de demonstração a grande influência de ambos os livros em foco, e até mesmo para o mais datado Kuhn não deixam aqui de surgir propostas no sentido de uma certa continuidade. 

Lynch & Mialet
Comecemos então por seguir Michael Lynch2 e questionar o que separa e aproxima os dois livros. Lynch, editor cessante da SSS, parece-me acertar ao apresentar a Estrutura e o SiA como sendo exemplificativos das próprias ideias que veiculam: Kuhn operou uma revolução no modo como abordamos a ciência o seu desenvolvimento histórico, e Latour foi indubitavelmente bem sucedido em construir uma amplo actor-rede para a sua abordagem. Lynch aponta também as semelhanças entre o conceito de matriz disciplinar (apresentado no posfácio à segunda edição da Estrutura) e o de actor-rede, assim como o facto de ambos os autores se terem servido de uma retórica revolucionária. No entanto, deixa em aberto a questão da agência, que assinala como o fulcro das diferenças entre Latour e Kuhn, e que por isso mesmo mereceria pelo menos uma discussão preliminar. Isso ajudar-nos-ia certamente a responder à questão contra-factual lançada por Hélène Mialet, “onde estariam os Science Studies sem Bruno Latour?”3, de forma mais concreta do que o faz a própria autora. Mialet, discípula de Latour, estende o exercício de aplicação de Science in Action ao próprio livro e ao seu autor, chegando mesmo a questionar se SiA não se tratare alimentar o capaz de gerar debate. assim um retarto mais va e autor toca na questas dos dois gigantes ocidentais como merameá, afinal, de uma autobiografia. Ou, poder-se-ia acrescentar, de uma espécie de autobiografia avant-la-léttre, de um projecto de vida intelectual que logrou ter uma concretização particularmente feliz. Também o texto o texto de Mialet é uma feliz sinopse biográfica, e até auto-biográfica, pois a autora é ela própria parte integrante do actor-rede de Latour. E ao desfiar a sua breve digressão reflexiva revela-se hábil em atenuar o compreensível tom encomiástico que lhe está subjacente. Apresenta-nos um Latour em contexto, assinalando interesses e divergências intelectuais, e personagens que o influenciaram, oferecendo-nos assim um retrato mais vívido do nascimento do SiA. Mas é obviamente noutras contribuições que temos que procurar o criticismo capaz de gerar e alimentar o debate.

Fuller
É interessante notar que, dentre os autores que contribuem para o conjuntoa, são os filósofos que parecem tomar as posições mais pragmáticas. Partindo de uma percepção de que uma difusa mas poderosa ordem neo-liberal se apoderou da academia, moldando os rumos à investigação universitária, Steve Fuller4 vem defender a abordagem de carácter normativo subjacente à subdisciplina que ele próprio promove, a epistemologia social. Kuhn e sobretudo Latour, se não os autores, pelo menos os livros em foco e a difusão e influência que tiveram, são apontados como culpados pela demonização da simples ideia de que a ciência, enquanto actividade intelectual, possa ser autónoma da sociedade em que se insere (ainda que, neste ponto, seja preciso ter em consideração que o próprio Kuhn apreciava a ideia das comunidades científicas isoladas – mas também Michael Lynch recorda que SSR e SIA foram apropriados e recontextualizados muito para além do que os próprios autores desejariam). Fuller critica especialmente a homogeneização ontológica operada por Latour que, fugindo a caracterizar a ciência como uma forma específica de actividade humana para a descrever essencialmente como um processo de extensão de redes, coloca num mesmo plano todos os entes (ou actores) envolvidos, humanos e não humanos. Uma tal concepção de ciência sobrepõe-se ao dualismo internalismo/externalismo apagando definitivamente do horizonte a simples possibilidade uma ciência orientada essencialmente pelos ditames da investigação desinteressada e do jogo intelectual da procura do conhecimento. A visão de Fuller reveste-se de um ostensivo idealismo (no sentido da defesa de um ideal de independência académica), mas o facto de muitos dos centros de investigação em STS e dos mais sonantes nomes da área se situarem presentemente em molduras institucionais orientadas para as questões dos mercados e dos negócios, não só dá força à sua crítica como confere pertinência à sua proposta normativa. Este é talvez um dos pontos que deverá merecer uma maior atenção na discussão: terão Kuhn e Latour, por força da difusão e impacto dos livros em análise, condenado condendenars em an umafessor que defende abertamente estas ideiass seu mangle, lgo evasiva eender a natureza como umapor força condenado condecondenado os Science Studies, incluindo aqui a HC, a submeterem-se a interesses e agendas exteriores ao mundo académico? Ou será o seu sucesso, para utilizar a expressão de Michael Lynch, auto-exemplificativo, na medida em ele próprio reflectiria essa promiscuidade entre o mundo universitário e tudo o que o rodeia? E nesse caso será possível quebrar o círculo? Mas importa também questionar se, uma vez que os Science Studies se prestam a conceptualizar uma ciência que interessa à ordem neo-liberal, não é isso também um projecto normativo? Nesse caso, o problema não está em tomar ou não uma abordagem normativa, mas antes na forma de normatividade que se escolhe. 

Turner
Stephen Turner5 aborda o modo como, ao “socializar”, sob a forma de paradigma, a ordem conceptual que o neo-kantismo defendia existir na física, Kuhn abriu caminho para o relativismo nos Science Studies, uma vez que o paradigma continha as suas próprias bitolas de sucesso, baseadas em premissas destituídas de efectivo fundamento racional. Quanto a Latour, Turner assinala que a teoria actor-rede “des-epistemologizou” o social e excluiu a explicação cognitiva da bateria de recursos a empregar no estudo da ciência, tendo Latour, colocado o foco na descrição, em detrimento das várias explicações alternativas que pretendia ultrapassar. Turner considera que as explicações fornecidas pela teoria actor-rede não chegam sequer a ser explicações, constituindo, na melhor das hipóteses, descrições. Neste ponto Turner parece confirmar o sucesso da estratégia defensiva de Latour que consiste afirmar que pretende descrever e não explicar. Mas o ponto importante a reter da crítica de Turner é a ênfase que atribui aos agentes da rede dotados de intencionalidade e às suas crenças sobre os factos sumarizados na descrição da rede, o que o autor toma como sinal de que é preciso voltar à epistemologia. Propõe então “epistemologizar” o social, de modo a compreender-se como se formam as crenças, o que implica conhecer quer os sujeitos, quer as rotinas institucionais em que estes se envolvem. Avisa que será necessário colocar questões politicamente incómodas – e.g., quando se deve acreditar nos especialistas, quando é que podemos confiar no processo de formação de consensos científicos. Mas uma vez que não nos deixa quaisquer pistas concretas sobre o modo de implementar a sua proposta de epistemologia social, perguntamo-nos até que ponto é que tem resposta esta questão igualmente incómoda – terão os próprios epistemólogos e filósofos da ciência algo de credível a dizer sobre estes problemas? 

Pickering & Collins
Apesar de as respectivas obras deixarem transparecer uma especial preocupação com essas questões, Andrew Pickering e Harry Collins optam aqui por se centrarem em Kuhn, adoptando uma postura ao mesmo tempo crítica e heurística. Numa curiosa fusão de paradigmas (que é também auto-exemplificativa da posição do autor) Pickering6 parte da noção taoista de que o mundo está em permanente fluxo para caracterizar os paradigmas como resultantes da procura de ilhas de estabilidade. Eae deve acreditar nos especilistasdeverm ser clocadas - quando stemologizou"para alçentntlmn Kuhn por Keoyr a natureza como umanfatiza a noção de “mundos diferentes”, mas apela a uma abordagem desta noção em que a diversidade nos modos de apreender a natureza é vista como uma possibilidade de inovação e adaptação, e não como algo negativo. Essa pretensa negatividade prender-se-ia com o problema da racionalidade – se os cientistas se convertem de um paradigma para outro (ou seja, mudam de mundo) de forma sobretudo intuitiva, então a mudança em ciência é um processo eminentemente irracional. Pickering faz uma abordagem ligeira e algo evasiva deste problema, mas escuda-se eficientemente na proposta de que a natureza permite vários modos de coexistirmos com ela, ao nível dos conceitos e sobretudo das práticas. Faz uma ostensiva apologia dessa diversidade, e da ciência enquanto adaptação a uma natureza em fluxo, ainda que pouco nos diga sobre o que perfaz a consistência interna de cada um dos mundos diferentes que invoca como exemplos. Mas uma vez que se serve do seu próprio trabalho, isto é algo a ser procurado nos seus textos de referência, e não neste breve comentário. De um modo geral, poder-se-ia dizer que Pickering assume uma postura neo-Kunhniana, dando mais ênfase às práticas e à materialidade do que aos conceitos, e substituindo a incomensurabilidade por um enfoque nas possibilidades de comunicação entre paradigmas. Resta saber se ainda tem alguma utilidade este Kuhn transfigurado, ou se não nos servirá melhor o actor-rede para descrever a formação destas ilhas de estabilidade. Claro que Pickering preferira, seguramente, o seu mangle,7 que é, em grande medida, ANT sob a forma de uma metáfora tecnológica. 

Também Collins8 opta por enfatizar a questão da comunicação. Começa por abordar o contexto em que a Estrutura foi escrita, apontando alguns trabalhos antecedentes, nomeadamente os de Fleck (que, diz-nos Collins, pensava como um cientista, de forma reflexiva), Wittgenstein, e sobretudo Peter Winch. A ideia-força que, segundo Collins, já estava presente nestes autores e que foi explorada por Kuhn é que os paradigmas são formas de vida em ciência. Não se pode separar um paradigma conceptual de um paradigma prático, porque na vida colectiva a ideia torna-se inseparável da prática. Apesar de relativizar o carácter inovador da Estrutura, Collins concede a Kuhn o mérito de ter desencadeado uma nova forma de pensar a ciência, e considera não só que não haveria ideia de incomensurabilidade sem Kuhn, mas também que esta ideia requer mais trabalho exploratório, constituindo uma importante linha de investigação a ser desenvolvida. Collins descarta a noção de “trading zones” empregue por Galison como um simples artifício linguístico para exprimir o facto de que indivíduos situados em diferentes paradigmas comunicam entre si; por conseguinte, deixa em aberto o modo como efectivamente se processa esta comunicação. E aí reside a possibilidade de ainda estendermos o que Kuhn aflorou na Estrutura

Dear & Jasanoff
Peter Dear e Sheila Jasanoff assinam dois dos texto mais fortemente críticos do lote. Dear9 dissocia-se do espírito celebratório do conjunto, argumentando que Kuhn teve pouca influência na história da ciência, e que algumas das questões centrais exploradas em Science in Action (nomeadamante a anulação da distinção entre epistemologia e ontologia) não geraram especial interesse entre os historiadores. Em vez de celebrar as duas obras e os seus autores, Dear salienta que estes já têm vindo a ser longamente celebrados - o que não constitui prova de influência, sendo esta, aliás, um fenómeno bastante difícil de avaliar, como aponta Dear. Se Harry Collins nos apresenta um Kuhn prosperando intelectualmente com recurso a ideias e conceitos previamente lançados por Finch e Wittgenstein, Dear acentua o apego de Kuhn por Koyré, cujo estilo de história intelectualista não coincide com a imagem habitual da Estrutura e do seu impacto. Segundo Dear, a Estrutura adquiriu um estatuto mítico nos Science Studies por ter afastado a filosofia da ciência do empirismo lógico e a sociologia da ciência do funcionalismo mertoniano, abrindo assim caminho aos trabalhos revolucionários de Donna Haraway e do próprio Latour. De resto, terá sido a filosofia da ciência o principal receptáculo da Estrutura. Note-se o contraste com Steven Fuller, relativamente à questão da autonomia das comunidades científicas. Fuller faz uma apologia do normativismo em prol da livre investigação, procurando, nessa linha, resgatar Kuhn das leituras que o colocaram na senda de uma ciência que não pode ser desligada dos seus contextos mais amplos. Já Dear apresenta a Estrutura como um eco do modelo de uma ciência livre e democrática que era propalado nos EUA durante a Guerra Fria, mas que, como o próprio Dear sardonicamente aponta, colidia com a realidade de um meio científico dependente de fontes externas de financiamento, e por mesmo sujeita a interesses vários. Este ponto deve ser visto à luz da recente polémica que opôs Peter Dear e Sheila Jasanoff a Lorraine Daston, a propósito da aproximação entre os Science Studies e a História da Ciência. Defendendo uma aproximação entre estes dois campos como uma forma de abordar o complexo entrosamento da ciência com sociedade, a economia e a política, Dear e Jasanoff contestam a proposta de Daston de uma reaproximação entre a história da ciência e a filosofia da ciência, que vêm como uma deriva intelectualista contrária a uma forma de estar na vida académica preocupada com o mundo que a rodeia. Ou seja, se de facto a vida académica não pode ser separada do mundo em que insere, mais vale assumi-lo e seguir precisamente por aí. Compreende-se assim o certo desdém com que Dear retrata um Kuhn fascinado com a ideia de comunidades científicas isoladas, e que tomou como modelo historiográfico a obra de um historiador interessado, acima de tudo, no conteúdo intelectual da ciência (Koyré). No entanto, se Dear parece estar certo ao relativizar a influência de Kuhn no modo como se tem vindo a fazer história da ciência, é menos convincente no modo como caracteriza a influência de Latour entre os historiadores, pois aborda o assunto em termos de questões conceptuais quando o grande impacto historiográfico de Latour reside, assim me parece, na pregnância dos artifícios idiomáticos que habilmente introduz em Science in Action: “centros de cálculo”, “acção á distância”, etc. Fosse pela influência do próprio Latour, ou simplesmente pelo progressivo esgotamento dos tópicos históricos centrados nas grande figuras, instituições e centros de produção, uma atenção cada vez maior a temas históricos em que a circulação, a comunicação, os impérios e os espaços coloniais, garante uma utilidade prolongada para o idioma latouriano, mesmo que os historiadores estejam pouco preocupados em discutir as questões conceptuais subjacentes a Science in Action. E sendo Dear um defensor da aproximação entre os Science Studies e a HC, é estranho não encontrar aqui um motivo de contentamento: pois se o idioma kunhiano se expandiu sobretudo para além das áreas disciplinares mais directamente relacionadas com a Estrutura, o idioma de Latour tem claramente uma forte presença na HC, consistindo portanto uma via de aproximação. 

Jasanoff10 reconhece plenamente esta pregnância idiomática, mas referindo-se aos Science Studies (ainda que aparentemente tome o campo como inclusivo da história da ciência, o que é coerente com a posição partilhada com Dear, e que acabo de referir). O artigo de Jasanoff é talvez dos que assumem uma posição reflexiva e crítica mais forte. A autora começa por caracterizar o número temático da SSS como um exercício de identidade de grupo, avançando depois para uma severa caracterização de Kuhn, em que este é retratado como detentor uma imaginação social pobre, que se reflecte quer na visão machista da ciência que oferece na Estrutura, quer na pouca importância que nessa obra (e no seu trabalho em geral) concede às interacções sociais. Se Kuhn deve ser invocado quando se traça a genealogia dos Science Studies, então deve sê-lo sempre juntamente com Fleck, que a autora apresenta não apenas como um percursor de algumas das ideias apresentadas na Estrutura, mas sobretudo como um pensador mais subtil, que se debruçou sobre as questões da subjectividade e da comunicação (poderíamos então dizer, inter-subjetividade), tendo inclusivamente mostrado alguma sensibilidade à questão do género. Também Latour é alvo de fortes críticas. Segundo Jasanoff, Latour não oferece senão uma abordagem de vistas curtas à complexidade da ciência. Isto porque, argumenta a autora, ao prescrever que devemos seguir os engenheiros e cientistas para analisarmos as controvérsias científicas, Latour coloca uma ênfase nos actores que negligencia importância da sociedade, da cultura e das instituições no desenrolar dessas mesmas controvérsias. E avança que devemos mesmo deixar de abordar as controvérsias em termos de quem ganha, e em vez disso questionar quem beneficia com o resultado das controvérsias, e para que fins. Ainda que use o termo apenas de forma tangencial, Jasanoff faz claramente uma apologia do seu idioma alternativo, dito de co-produção, que supostamente permitiria proceder a uma caracterização mais abrangente não só das controvérsias científicas mas de toda a complexidade das interacções entre a ciência, a tecnologia e os seus contextos sociais, políticos e económicos. Já discutimos este tema aqui no Journal Club11 e não resisto a reiterar que, ainda que concorde com Jasanoff relativamente à atenção alargada que devemos dar a estas interações, o seu idioma pouco parece trazer de novo. Percebe-se que autora quer vincar a sua influência (que já é enorme) nos Science Studies, e que a orienta uma clara noção de que triunfará quem apresentar o idioma mais pregnante. Mas não será o seu idioma da co-produção apenas mais um “fogo de artifício verbal”, expressão com que se refere indirectamente ao idioma latouriano?

Lagesene
Igualmente preocupada com questões de género está Vivian Anette Lagesene, que assina o que eu considero tratar-se da contribuição mais desinteressante de todo o conjunto. O seu texto transmite a sensação de ter sido escrito à pressa porque sim – era imperativo haver um artigo sobre Science Studies e género. Carece totalmente do fôlego crítico da maioria dos restantes textos e da graciosidade do encómio de Mialet, oferendo uma espécie de apologia ilustrativa que nem sequer se refere à obra de Latour em foco, mas antes ao mais tardio Reassembling the Social. Ainda assim, se a sua intenção era mostrar que, ao contrário do que apontam as críticas feministas, Latour lançou ideias importantes para os estudos de género, não fica claro em que medida em que estas ideas podem potenciar uma abordagem que permita avançar significativamente para além dos binários e essencialismos tradicionais. Lavesen parece, pelo contrário, mostrar que afinal Jasanoff tem razão quando fala de “fogo de artifício verbal”; o idioma latouriano servirá, afinal, para tudo aquilo a que se quiser aplicá-lo. E como talvez perguntasse Fuller – no fim de contas, explica o quê? 

Nakajima
Também a contribuição de Hideto Nakajima12 sugere ter sido incluída para que esta série de artigos fosse “academicamente correcta” – neste caso, para que não se veiculasse uma perspectiva exclusivamente ocidental. Mas o árido relato que Nakajima oferece acerca da história dos Science Studies no Japão e da introdução da Estrutura no seu país é decepcionante para quem o lê esperando encontrar alguma perspectiva refrescante. Mais importante do que a cronologia dos Science Studies no Japão, ou até do que a revelação de que Latour tem pouco impacto na cena académica nipónica, é seguramente o apelo do autor a uma nova orientação nos Science Studies, que permita lidar com fenómenos como os de Fukushima. Nakajima apresenta como missão para os Science Studies japoneses a criação de novas linhas conceptuais e metodológicas que possam fazer face ao que designa por “ciência real”. Há um indisfarçável toque nacionalista no modo como apela a este empreendimento, e como classifica as obras dos dois gigantes ocidentais como sendo essencialmente descritivas. No entanto, ainda que tamb e quaisquer proostas concretas oncretas , nte descritivas. Mas o autor toca na questas dos dois gigantes ocidentais como merameém não apresente quaisquer propostas concretas, parece-me relevante o reforço ao apelo pragmático presente noutras contribuições, não meramente no sentido de se promover a explicação em detrimento da simples descrição, mas sobretudo de transformar os Science Studies numa disciplina de intervenção. Uma profunda discussão em torno desta questão é seguramente uma boa forma de celebrar os 50 anos da Estrutura e os 25 de Science in Action

Notas:


 1 V. a introdução de Sergio Sismondo, ‘Fifty years of The Structure of Scientific Revolutions, twenty-five of Science in Action’, Social Studies of Science 42, 2012: 415. Não teço aqui qualquer comentário a este texto uma vez que se trata apenas da apresentação do tema.
2 Hélène Mialet, ‘Where would STS be without Latour? What would be missing?’, Social Studies of Science 42, 2012: 456.
3 Michael Lynch, ‘Self-exemplifying revolutions? Notes on Kuhn and Latour’, Social Studies of Science 42, 2012: 449.
4 Steve Fuller, ‘CSI: Kuhn and Latour’, Social Studies of Science 42, 2012: 429.
5 Stephen Turner, ‘Whatever happened to knowledge?, Social Studies of Science 42, 2012: 474. 
6 V. Andrew Pickering, The Mangle of Practice, University of Chicago Press, 1995, esp. pp. 22-7.
7 Andrew Pickering, ‘The world since Kuhn’, Social Studies of Science 42, 2012: 467.
8 Harry Collins, ‘Comment on Kuhn’, Social Studies of Science 42, 2012: 420.
9 Peter Dear, ‘Fifty years of Structure’, Social Studies of Science 42, 2012: 424.
10 V. Sheila Jasanoff, ‘The idiom of co-production’, in Sheila Jasanoff (ed.), States of Knowledge: The co-production of Science and social order, Routledge, 2004, pp. 1-12. 
11 Sheila Jasanoff, ‘Genealogies of STS’, Social Studies of Science 42, 2012: 435
12 Hideto Nakajima, ‘Kuhn's Structure in Japan’, Social Studies of Science 42, 2012: 462. 

Knowing and doing in the sixteenth century: what were instruments for?

Sessão de 30 de Janeiro de 2007, Samuel Gessner.

Jim Bennett,
"Knowing and doing in the sixteenth century: what were instruments for?",
The British Journal for the History of Science, vol. 36, no. 2, 2003, p. 129-150

Bennett propõe a ideia de estudar os instrumentos do século XVI como objectos que requerem a colaboração dos conservadores (curators) de colecções de instrumentos e dos historiadores de ciência (p. 131). Segundo o autor, um motivo importante para esta proposta seria o seu significado para as mudanças da Revolução Científica (p. 131).

Uma primeira parte do artigo (p. 131-143) expõe uma caracterização dos instrumentos matemáticos do século XVI: esta caracterização da sua verdadeira natureza e do seu papel na cultura matemática vai-se afinando ao longo do artigo. Ela começa pela observação de que a dimensão operacional (for doing) destes instrumentos prevalece sobre a sua dimensão cognitiva (for knowing). Do ponto de vista operacional os instrumentos são concebidos para permitir a resolução de um conjunto predefinido de problemas nas várias artes matemáticas.

Na sua procura de uma caracterização, Bennett insiste que esta deve ser suficientemente abrangente para englobar todos os “produtos das diferentes artes matemáticas” (p. 139). Porquê? Porque por um lado, os livros dos práticos predicam esta coerência, e por outro lado, as carreiras de matemáticos, cosmógrafos e fabricantes de instrumentos demostram esta unidade. (O autor refere os exemplos de Regiomontano e Gemma Frísio.)

A parte cognitiva (for knowing) é mais complicada de tratar: Bennett afasta primeiro a hipótese de que os instrumentos seriam (vistos como) modelos – o que é evidente no caso da descrição do astrolábio dada na Elucidatio de Stöffler (1513). Passando à revista todos os tipos de objectos tratados como “instrumento matemático” no século XVI (mapas, diagramas móveis ou imóveis em livros, theoricae incluidos), Bennett afirma então que na “theorica” se mostra a característica cognitiva de todos os instrumentos de forma mais evidente: é desta maneira que encapsulam a relação entre matemática e o mundo (p.143).

Visto a continuidade que existe entre instrumentos de latão, madeira, cartão, papel, diagramas móveis e theoricae, Bennett levanta o problema de a base de dados Epact não incluir uma população representativa da “prática matemática” na época porque exclui geralmente os últimos tipos mencionados por razões puramente extrínsecas.

Armado desta sensibilidade relativamente à continuidade de um leque de “produtos matemáticos”, como o autor os chama, analisa então a utilização de uma theorica por William Gilbert no seu tratado De magnete (1600). Bennett mostra que no Livro 5º Gilbert elabora uma theorica para dar conta da inclinação magnética em função do lugar no globo terrestre, e como esta theorica lhe inspira, no livro 6º, o desenvolvimento de uma teoria de esferas magnéticas efusas, responsáveis para a rotação diuturna da terra. Gilbert passa portanto de um tratamento “instrumentalista” dos fenómenos, à uma atitude “realista”, da cosmografia passa à filosofia natural. Este caso constitui, consoante Bennett, também um exemplo do potencial que tinha na época o uso da theorica, além do caso bem conhecido na astronomia. Osiander propõe uma interpretação “instrumentalista” do De revolutionibus (1543) de Copérnico embora o autor ter uma atitude realista; ou mais tarde Kepler insiste no estatuto “realista” dos hipóteses na sua Astronomia nova (1609). Bennett sugere pois que este problema do estatuto da matemática em relação à filosofia natural não seria confinado ao caso astronomia/cosmologia mas que se levanta em várias ciências matemáticas (p. 143).