Elsa Mota, Paulo Crawford and Ana Simões,
"Einstein in Portugal: Eddington's expedition to Principe and the reactions of Portuguese astronomers (1917-25)",
The British Journal for the History of Science, Published online, 2008
Este blogue proporciona um espaço para prolongar as discussões sobre os textos apresentados nas sessões do journal club.
Um foro para trocar ideias sobre a recente historiografia das ciências e da tecnologia.
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5/22/2009
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Palavras chave: apropriação, astronomia, Einstein, Principe, relatividade
Sessão de 7 de Abril de 2009, Ana Patrícia Martins
Luis Manuel Ribeiro Saraiva,
"Mathematics in the Memoirs of the Lisbon Academy of Sciences in the 19th century",
Historia Mathematica, vol. 35, 2008, p. 302-326
O autor apresenta uma avaliação sobretudo estatística dos trabalhos matemáticos publicados, durante o século XIX, num periódico específico: as Memórias da Academia das Ciências de Lisboa, editadas em três séries (Primeira série: 1797-1839; Segunda série: 1843-1856; Nova série: 1854-1903+). A vitalidade das Memórias é analisada ao nível do volume de artigos matemáticos, em comparação com os de outras áreas, das mudanças verificadas nos temas tratados, da caracterização dos seus autores e do impacto causado na comunidade matemática europeia.
A análise da produção matemática inserta nas Memórias justifica-se pelo facto de a Academia das Ciências de Lisboa ser, desde os finais do século XVIII e até 1877, a principal instituição responsável em Portugal pela publicação de periódicos científicos contendo artigos matemáticos. O ano de 1877 assinala o início de “uma nova era” para a matemática produzida no país, com a fundação do “inovador” Jornal de Sciencias Mathematicas e Astronomicas, pelo eminente matemático Francisco Gomes Teixeira.
Numa primeira secção, Luís Saraiva faz uma caracterização do estado de adiantamento das matemáticas em Portugal, no século XIX, centrando-se em dois aspectos: trabalhos matemáticos produzidos e instituições responsáveis pela promoção da matemática, através do seu ensino ou investigação. Os dados compilados por Rodolfo Guimarães na obra Les Mathématiques en Portugal au XIXe siècle, de 1900 e aumentada em 1909 (obra que, pela sua catalogação demasiado heterogénea de assuntos matemáticos, deve merecer da parte do leitor uma análise cuidada), permitem ao autor agrupar a produção nacional, distribuída por temas, em três épocas: primeira metade do século XIX, terceiro e último quartéis do mesmo século. Cita ainda instituições e publicações relevantes para o progresso das matemáticas, distribuídas apenas por três cidades do país. Em Coimbra, a Universidade e a academia científica, literária e artística Instituto de Coimbra (1852), responsável pelo periódico O Instituto. No Porto, a Academia Politécnica do Porto (1837), sucessora da Academia Real de Marinha e Comércio da Cidade do Porto. Em Lisboa, destacam-se: a Academia das Ciências de Lisboa, responsável pelas Memórias (1797) (até à década de 1850 o único periódico científico contendo artigos matemáticos) e ainda pelos periódicos Bulletin (1851), Annaes das Sciencias e Lettras (1857-58) e Jornal de Sciencias Mathematicas, Physicas e Naturaes (1866); a Escola do Exército (1837), sucedendo à Academia Real de Fortificação Artilharia e Desenho; a Escola Politécnica (1837), sob a responsabilidade do Ministério da Guerra, suprindo a Academia Real de Marinha; e a Escola Naval (1845), sucessora da Academia Real dos Guardas Marinhas. Indica também a Revista de Obras Públicas e Minas (1871) criada pela Associação dos Engenheiros Civis e, finalmente, o já mencionado Jornal de Sciencias Mathematicas e Astronomicas (1877) de Gomes Teixeira.
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4/07/2009
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Palavras chave: academia das ciências, internacionalização, Lisboa, matemática, periferia, publicações, século XIX
Sessão de 27 Novembro 2008, Júlia Gaspar.
LEFÈVRE, Wolfgang,
"Science as Labor",
Perspectives on Science, vol. 13, no. 2, 2005, p. 194-225
O termo tecnociência é usado com dois sentidos, um mais alargado outro mais restrito. O primeiro refere-se ao emaranhado intricado da produção científica e económica que se desenvolveu a partir do século dezanove e caracteriza hoje o processo social da produção no Ocidente. A produção da alta tecnologia moderna não se baseia só na ciência mas assenta na ciência que se tornou possível graças ao desenvolvimento destes processos científicos avançados, ou seja, é por seu lado suportada pela produção de base científica.
No sentido restrito tecnociência designa ciências que são um verdadeiro híbrido representado pelos processos de produção científicos e normais. Ao mesmo tempo que incluem os processos tecnológicos inerentes à respectiva ciência experimental produzem literalmente os objectos que estudam. São exemplos a química moderna e campos da física como a física das partículas.
O texto procura resposta para duas interrogações. O carácter tecnocientífico da ciência é óbvio no caso das ciências que produzem materialmente os objectos que investigam, mas poderá este carácter estender-se, de forma generalizada a toda a ciência?
Será possível detectarmos novos traços da sua prática, das suas pré-condições, das suas dinâmicas e talvez até da sua dimensão cognitiva, se olharmos para a ciência em geral à luz da nossa experiência actual de penetração mútua de ciência, tecnologia e produção normal?
A resposta do autor pressupõe concepções que transcendem as habitualmente aplicadas nos estudos sociais da ciência em que o estudo da sociologia está divorciado do estudo da economia. Por isso Lefèvre recorre aos termos e às categorias da teoria sociológica de Karl Marx. Assim, a ciência é considerada como factor do processo de produção que se tornou tão importante como o acesso a matérias-primas, contudo a ciência tem condicionamentos específicos. As descobertas e inovações não podem ser previstas ou planeadas, a ciência tem um carácter aberto, e os custos elevados que a ciência comporta retiraram o seu controle da iniciativa privada, mais interessada em empreendimentos lucrativos. Assim tornou-se indispensável um gigantesco sector de ciência e tecnologia, tanto nos países de iniciativa privada como nos de economia socialista. Como resultado de interacções complexas de longa duração entre todos os parceiros sociais envolvidos – comissões políticas constitucionais, agências de serviço público, forças armadas, associações de companhias comerciais e industriais, assim como instituições para a ciência e tecnologia tradicionais ou recém-formadas – foi desenvolvido e continua a desenvolver-se um sistema intricado de locais de investigação e formação científica formalmente independentes, semi-dependentes e controladas directamente. Estas redes institucionais representam a forma social da ciência e constituem uma parte do processo social do trabalho.
A relação entre ciência e produção económica caracteriza-se por uma ligação estreita, não de sujeição simples da primeira em relação à segunda, mas antes uma dependência, em que a esfera da produção económica é uma condição essencial para a existência da ciência. Mas esta relação entre os benefícios dos dois lados é assimétrica no período com início na época moderna até à Revolução Industrial. Esta Revolução foi um ponto de viragem. Entre 1500 e 1800 a contribuição da ciência para o desenvolvimento da produção económica era modesta, embora vários sectores pudessem usufruir do conhecimento adquirido cientificamente. Com a Revolução Industrial a assimetria da relação entre ciência e produção económica começa a ser lentamente substituída por uma relação material complexa de mútua dependência, embora a esfera da produção económica tivesse mais importância para a ciência como fonte rica de materiais, instrumentação, inspiração, conhecimento e experiências. Também foram importantes as relações do comércio internacional, com particular incidência nos sistemas coloniais construídos desde o século dezasseis pelas nações europeias. Dos processos artesanais até à high-tech a dependência da ciência da produção económica tornou-se cada vez mais profunda. Em contrapartida a base científica da produção industrial também se alargou.
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11/27/2008
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Palavras chave: tecno-ciência
Sessão de 12 Março 2008, Maria do Mar Gago.
Peter Galison,
"Trading Zone: Coordinating Action and Belief", in The science studies reader, Mario Biagioli (ed.), New York, Routledge, 1999, p 137-160
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3/12/2008
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Palavras chave: anti-positivistas, coordenação local, experimetação, instrumentação, positivistas, sub-cultura, teoria, trading zone
Sessão de 30 de Janeiro de 2007, Samuel Gessner.
Jim Bennett,
"Knowing and doing in the sixteenth century: what were instruments for?",
The British Journal for the History of Science, vol. 36, no. 2, 2003, p. 129-150
Uma primeira parte do artigo (p. 131-143) expõe uma caracterização dos instrumentos matemáticos do século XVI: esta caracterização da sua verdadeira natureza e do seu papel na cultura matemática vai-se afinando ao longo do artigo. Ela começa pela observação de que a dimensão operacional (for doing) destes instrumentos prevalece sobre a sua dimensão cognitiva (for knowing). Do ponto de vista operacional os instrumentos são concebidos para permitir a resolução de um conjunto predefinido de problemas nas várias artes matemáticas.
Na sua procura de uma caracterização, Bennett insiste que esta deve ser suficientemente abrangente para englobar todos os “produtos das diferentes artes matemáticas” (p. 139). Porquê? Porque por um lado, os livros dos práticos predicam esta coerência, e por outro lado, as carreiras de matemáticos, cosmógrafos e fabricantes de instrumentos demostram esta unidade. (O autor refere os exemplos de Regiomontano e Gemma Frísio.)
A parte cognitiva (for knowing) é mais complicada de tratar: Bennett afasta primeiro a hipótese de que os instrumentos seriam (vistos como) modelos – o que é evidente no caso da descrição do astrolábio dada na Elucidatio de Stöffler (1513). Passando à revista todos os tipos de objectos tratados como “instrumento matemático” no século XVI (mapas, diagramas móveis ou imóveis em livros, theoricae incluidos), Bennett afirma então que na “theorica” se mostra a característica cognitiva de todos os instrumentos de forma mais evidente: é desta maneira que encapsulam a relação entre matemática e o mundo (p.143).
Visto a continuidade que existe entre instrumentos de latão, madeira, cartão, papel, diagramas móveis e theoricae, Bennett levanta o problema de a base de dados Epact não incluir uma população representativa da “prática matemática” na época porque exclui geralmente os últimos tipos mencionados por razões puramente extrínsecas.
Armado desta sensibilidade relativamente à continuidade de um leque de “produtos matemáticos”, como o autor os chama, analisa então a utilização de uma theorica por William Gilbert no seu tratado De magnete (1600). Bennett mostra que no Livro 5º Gilbert elabora uma theorica para dar conta da inclinação magnética em função do lugar no globo terrestre, e como esta theorica lhe inspira, no livro 6º, o desenvolvimento de uma teoria de esferas magnéticas efusas, responsáveis para a rotação diuturna da terra. Gilbert passa portanto de um tratamento “instrumentalista” dos fenómenos, à uma atitude “realista”, da cosmografia passa à filosofia natural. Este caso constitui, consoante Bennett, também um exemplo do potencial que tinha na época o uso da theorica, além do caso bem conhecido na astronomia. Osiander propõe uma interpretação “instrumentalista” do De revolutionibus (1543) de Copérnico embora o autor ter uma atitude realista; ou mais tarde Kepler insiste no estatuto “realista” dos hipóteses na sua Astronomia nova (1609). Bennett sugere pois que este problema do estatuto da matemática em relação à filosofia natural não seria confinado ao caso astronomia/cosmologia mas que se levanta em várias ciências matemáticas (p. 143).
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1/30/2008
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Palavras chave: cosmografia, instrumentos matemáticos, revolução científica, século XVI, theorica
Sessão de 19 de Dezembro de 2007, Henrique Leitão (resumo SG)
Dennis R. Danielson,
"The great Copernican cliché",
American Journal of Physics, vol. 69, n. 10, 2001, p. 1029-1035
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12/19/2007
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Palavras chave: clichés históricos, copernicianismo
Sessão de 28 Novembro 2007, Júlia Gaspar.
Agustí Nieto-Galan,
”Free radicals in the European periphery: ‘translating’ organic chemistry from Zurich to Barcelona in the early twentieth century”, British Journal for the History of Science, vol. 37, no. 2, 2004, p. 167-191
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11/29/2007
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Palavras chave: centro, escola de investigação, periferia
Este artigo de Nick Jardine é dedicado a Herbert Butterfield. Na verdade dizer isto não é dizer tudo. O autor tem um duplo objectivo: por um lado voltar a reflectir sobre as ideias de Butterfield acerca da interpretação whiggish da HC e por outro fazer um paralelo, se possível, para a história da ciência tal como é praticada nos dias de hoje.
O artigo começa com uma confissão do próprio autor em relação ao seu precário conhecimento passado da obra de Butterfield: uma das suas principais noções era de que tinha sido Butterfield a introduzir, no seu livro The Whig interpretation of history (1931), o termo whig para caracterizar um tipo de visão histórica anacronista e com franca apetência para glorificar os actores históricos. Outra das informações sobre o importante historiador britânico era sobre a sua posição (veiculada no livro The origins of modern science) em relação ao papel da (designada) revolução científica dos séculos XVI e XVII ao declara que esta “eclipsava todos os acontecimentos desde o aparecimento do cristianismo”. Na posse de pouca informação sobre os escritos e ideias de Butterfield esta era, desde logo, para Jardine uma posição presentista. Outras questões intrigaram Jardine: o porquê de os termos introduzidos por Butterfield (whig, internalista, positivista ou triunfalista) terem pouco eco na comunidade dos historiadores ditos normais ou generalistas e o porquê de, nos anos 70 e 80, esta visão da análise histórica ter tido um novo fôlego por parte dos historiadores da ciência. E por ultimo, teriam as ideias e observações de Butterfield sentido para os HsC de hoje em dia? (Confesso que Jardine sabia e já se tinha questionado muito mais sobre o assunto do que eu).
Num primeiro estudo, confessadamente superficial, Jardine reparou que poucos historiadores mainstream da altura passaram a usar as categorias de Butterfield. Além do mais, Butterfield parecia não ter notado que muitos dos problemas da analise também eram válidos para os escritos de tendência mais conservadora e/ou católica. De facto, Jardine também constatou que os termos whig e whiggish já eram usados na historiografia geral, cerca de 4 décadas antes de Butterfield, para caracterizar uma tendência histórica de heroificação das instituições inglesas e do progresso que conduziu ao seu sistema parlamentar. Tudo isto fazia já parte de uma certa tradição analítica que deixava clara a diferença entra uma história presentista e uma outra, por assim, dizer “histórica”. Termos como anacronismo eram já usados para caracterizar textos que localizavam as coisas fora do seu lugar histórico ou que tratavam os actores históricos prolepticamente.
No que diz respeito à história da ciência, Jardine não detectou continuação das ideias de Butterfield nas 3 décadas que seguiram a publicação da WIH. Um dos primeiros ecos foi detectado por volta de 1961 numa resposta de Guerlac a um comentário de Laslett a propósito de uma comunicação do próprio Guerlac. Guerlac, um historiador da ciência, teria apelado contra a especialização da história da ciência e a favor da sua integração no corpo de investigação histórica geral. Laslett, um historiador social e demográfico, iria mais longe questionando a validade dos estudos histórico-cientificos com base na não existência de uma clara definição de ciência aquando da sua “criação” no século XVII e da falta de consciência dos próprios praticantes em relação à sua actividade na época. Deste modo a própria categorização de uma actividade como “cientifica” seria desde o princípio uma categorização anacronista – anacronismo conceptual.
Em meados dos anos 70, era comum encontrar a terminologia ligada a Butterfield e outras relacionadas em textos dos historiadores da ciência. Esta nova lufada estava, na opinião de Jardine, com a necessidade de credibilizar os estudos historiográficos ligados à ciência e à consolidação e profissionalização da disciplina: era separar o trigo do joio. Mas, como Jardine mostra, Butterfield, ao contrário dos “novos” HsC não estava minimamente preocupado com o uso da palavra ciência para caracterizar a actividade dos Galileus, Kepleres, etc. Por isso nas décadas de 70 e 80 os HsC criticavam a analise whig ligada ao anacronismo conceptual aplicado às narrativas de progresso. Pode até dizer-se que se gerou uma febre que exagerou os ataques às liberdades linguísticas que tendiam a associar disciplinas específicas aos seus heróis fundadores – algo que Jardine acaba por não condenar apesar de sugerir que a acontecer seja com o devido equilíbrio e bom senso.
2. O trabalho que Butterfield desenvolveu no WIH levanta uma série de problemas historiográficos. No segundo ponto deste artigo, o autor vai apresentar de uma maneira mais aprofundada, as características das ideias de Butterfield. Segundo Jardine, seguindo Butterfield: “Acima de tudo os historiadores deviam estudar o passado como um fim em si, procurando entender e “ressuscitar” as gentes do passado e os seus contributos. Na verdade, o historiador deveria ter a capacidade de entender estes agentes melhor do que eles próprios se entendiam, ao investigar as maneiras pelas quais os seus pensamentos foram inconscientemente condicionados pelas circunstâncias e ao explorar as “imprevistas” consequências do seu trabalho. Além disto, o historiador não deveria exercer papel de juiz do passado mas sim funcionar como uma espécie de mediador entre passado e presente, como uma testemunha acreditada”. A ideia basilar parecia clara: Butterfield aspirava a uma “História total” da civilização e para tal exigia um papel mais relevante para a Historia da Ciência. Assim, o primeiro passo a dar num estudo histórico da ciência é reconhecer e estabelecer a distância entre passado e presente (isto deve ser um principio universal). No seguimento, impõe-se um respeito absoluto pelas fontes e pela sua análise rigorosa. E, uma vez atingido o rigor, o historiador deveria apelar à sua imaginação, visões (insights) e elasticidade mental (pergunto se isto não são características subjectivas e assim presentistas, já que dependem de um observador no presente).
3. Aqui, Jardine examina alguns problemas apontados por Butterfield à interpretação whig da história da ciência. O primeiro diz respeito às relações entre a investigação histórica e o que é conhecido como história geral e é visto por Jardine como uma chave para entender Butterfield no WIH. Butterfield acentuava aqui a importância pedagógica da história generalista, o que para ele queria dizer um tipo de história que abrangia períodos vastos e assuntos por tópicos – uma espécie de big picture. Neste âmbito poderia enquadrar-se a interpretação de tendências whig já que esta se baseava em análises selectivas e criteriosas de personagens e situações.
Apesar das suas ideias concretas, alguns trabalhos posteriores de Butterfield foram acusados, eles próprios, de inconsistência e de conter passagens exemplares de historia whig: nomeadamente no período durante a II grande guerra, ao celebrar a aliança inglesa com a história. Na análise de Jardine, esta inconsistência tem pouco fundamento no que diz respeito às suas ideias sobre os métodos de fazer história. Como exemplo, no seu trabalho The englishman and his history, Butterfield destaca o contributo whig para uma certa maneira de ser inglesa no que respeita à moderação em politica ao mesmo tempo que compromete uma historiografia moderna – isto é, o que neste livro era importante enfatizar é a finalidade da análise histórica e não os seus métodos. Na verdade, a critica de Butterfield à historiografia whig não negava a importância do progresso mas sim a linha de análise histórica que o vê como uma manifestação social linear.
O segundo problema tem exactamente a ver com o reconhecimento do progresso em história. Uma observação interessante diz: “A história não é o estudo das origens; é mais é mais uma análise de todas as interposições pelas quais o passado vem ao presente.” E, claro está, são estas mediações que são propícias a ser interpretadas de maneira whig: vendo por todo lado obstáculos ao progresso só ultrapassados por indivíduos e instituições talhadas como heróicas. Quanto aos factos que Butterfield considera como originadores de transições sobressaem as intersecções entre adversários, ao contrario das interpretação whig que só considera a acção dos progressistas sobre os inimigos do progresso. Butterfield também vai um pouco além das visões de carácter um pouco mais sociológico, como as visões marxistas, afirmando que nem tudo depende da motivação humana, por si só um fenómeno complexo. A sua sugestão passa pela concentração do historiador no que ele chama, “momentos pivot” e “detalhes significativos”.
O último dos problemas tem a ver com “os limites da história enquanto estudo e particularmente com a tentativa dos whig de lhe dar uma finalidade que ela própria não tem”. Butterfield sugere que mal o historiador ponha de lado as categorias whig e comece a apreciar a complexidade e “acaso” históricos (lembro aqui que Butterfield assentava muito da sua formação pessoal na acção da divina providencia), será possível ver-nos e aos nossos preconceitos espelhados na história que fazemos. No entanto, Butterfield nunca sugere a possibilidade de descartar totalmente os nossos preconceitos no interesse de uma análise desapaixonada do passado. Mesmo estes erros crassos, que são parte integrante da personalidade do historiador, têm o seu lado positivo já que motivam a perscrutação do passado e os estudos históricos. Na interpretação do autor, Butterfield via a história como um “arte” na qual as operações cruciais interpretação, selecção e narração eram uma questão de aptidão e não um procedimento regrado ou dogmático.
4. Jardine advoga que, obviamente, muito do que Butterfield defendeu no passado, principalmente no trabalho de 1931, pode hoje ser considerado datado e sem sentido. Para Jardine a maior excentricidade é a obsessão de Butterfeild com a acção da "Divina Providência", fruto, muito possivelmente, da sua formação pessoal. Jardine revela que o interesse de ler o socrático professor Butterfield reside na facilidade com que ele problematiza as assumpções tácitas que estão por detrás das várias práticas históricas e afirma que não adianta ler Butterfield como um livro de receitas de como conseguir a boa análise historiográfica. Mas a leitura que Jardine fez dos problemas identificados por Butterfield tem bastante eco nos nossos dias. Se não veja-se: o primeiro dos problemas de Butterfield mantém-se ainda actual na questão de se é legitimo apontar baterias de estudos às big pictures do desenvolvimento científico. A este propósito a passagem de Secord revela um desfasamento entre as tendências historiográficas actuais e a imagem pública da disciplina. Revela também que apesar de todo o esforço de destruição da maneira presentista de ver a história se estabeleceu um ciclo de auto-alimentação já que há ainda muitos estudos dedicados a criticar estas visões.
Em relação às ideias de Butterfield das transições históricas e à versão whig desta dinâmica, Jardine sugere que o foco deve recair sobre as mudanças que se dão na própria problemática científica ao longo da história, sendo assim possível apresentar a big picture e ultrapassar a divisão externalismo/internalismo.
Para nós estudantes e futuros profissionais da disciplina a ideia de não ser anacrónico, presentista ou whig, é-nos (ou deveria ser) incutida desde o princípio – o HC deve fugir disto como diabo da cruz. Mas, curiosamente, Jardine sugere que uma total ignorância das ferramentas científicas do presente quando se analisa o passado conduziria a uma paralisação historiográfica (questão para discutir). Jardine afirma que uma lição deve ser retirada do trabalho de Butterfield: discernimento em relação ao presentismo. Isto é, um pouco como tudo na vida, a analise histórica presentista não deve ser evitada a todo o custo mas sim equilibrada a todo o custo.
Em relação ao 3º problema de Butterfield, Jardine sugere que não há que usar a ideia de que tudo faz parte de um plano universal e divino para manter o cepticismo e distância histórica. Por outro lado é de admirar a posição de Butterfield ao defender o papel inevitável das paixões e preconceitos na interpretação histórica. Jardine assume que a questão está em fazer-se um bom uso da teoria de analise historiográfica sem enfatizar demasiadamente as diferenças humanas ou cair em estudos culturais duvidosos.
Por fim, surge a questão da postura moral do historiador. Muitos dos HsC de hoje preferem adoptar uma posição quase insensível de modo a não só facilitar mas de alguma maneira legitimar a sua própria investigação. Mas, ao contrário do que se supõe das ideias de Butterfield, Jardine lembra a sua forte visão moralista da história. Ao contrário da visão complacente da corrente whig, Butterfield defendia uma análise critica ao próprio presente e aos próprios praticantes da HC e esta é, na minha opinião, e penso que irá ser por muitos anos uma ideia chave da disciplina, talvez mesmo uma das suas maiores conquistas.
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10/24/2007
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Palavras chave: historiografia whiggish, releituras
Sessão de 11 Maio 2007, Maria do Mar Gago.
Rheinberger, Hans-Jörg,
"Experimental systems: historiality, narration, and deconstruction", in The science studies reader, Biagioli, Mario [ed.], New York, Routledge, 1999, p. 417-429
à(s)
5/11/2007
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Palavras chave: bifurcação, epistemologia do impreciso, fusão, sistemas experimentais